terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Via Láctea (Olavo Bilac)



 
 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
 
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
 
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
 
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Quero - Carlos Drummond de Andrade - voz de Paulo Autran

estupor leminski




esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

contranarciso leminski




em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

segunda-feira, 21 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Chac Mool Carlos Fuentes

Faz pouco tempo, Filiberto morreu afogado em Acapulco. Aconteceu na Semana Santa. Apesar de ter sido mandado embora do emprego na Secretaria, Filiberto não pôde resistir à tentação burocrática de ir, como todos os anos, à pensão alemã, comer o chucrute adocicado pelos suores da cozinha tropical, dançar o Sábado de Aleluia no La Quebrada e se sentir "gente conhecida" no escuro anonimato vespertino da praia de Hornos. Claro, já sabíamos que na sua juventude tinha nadado bem; mas agora, aos quarenta, e tão abatido como se encontrava, tentar atravessar, à meia-noite, o extenso trecho entre Caleta e a ilha da Roqueta!... Frau Müller não deixou que fosse velado, apesar de ser um freguês antigo, na pensão; pelo contrário, essa noite organizou um baile no terraço sufocado, enquanto Filiberto esperava, muito pálido dentro de sua caixa, que saísse o caminhão matutino do terminal, e passou lá, acompanhado de caixas e fardos, a primeira noite da sua nova vida. Quando cheguei, muito cedo, para cuidar do embarque do féretro, Filiberto estava embaixo de um túmulo de cocos: o motorista disse que o colocássemos rapidamente sob o toldo e o cobríssemos com lonas, para não espantar os passageiros, e que por favor não trouxéssemos azar à viagem. Saímos de Acapulco na hora da brisa da manhã. No percurso até Tierra Colorada nasceram o calor e a luz. Enquanto comia ovos e chouriço, abri o cartapácio de Filiberto, que tinha apanhado no dia anterior, junto com outros pertences, na pensão dos Müller. Duzentos pesos. Um jornal velho da cidade de México. Volantes de loteria. A passagem de ida — só de ida? E o caderno barato, de folhas quadriculadas e capas de papel mármore. Arrisquei-me a ler o caderno, apesar das curvas, do fedor a vômito e de um certo sentimento natural de respeito pela vida privada do meu defunto amigo. "Recordaria — sim, começava assim — nosso cotidiano labor no escritório; talvez soubesse, no final, por que foi rebaixado, esquecendo seus deveres, por que ditava ofícios sem sentido, nem número, nem "Sufrágio Efetivo Não Reeleição". Por que, enfim, foi afastado, esquecia a pensão, sem respeitar as hierarquias. "Hoje fui acertar o assunto da minha pensão. O bacharel, amabilíssimo. Saí tão feliz que resolvi gastar cinco pesos numa confeitaria. É a mesma que freqüentávamos quando jovens e aonde agora não vou mais, porque me lembra que aos vinte anos podia me dar a mais luxos do que aos quarenta. Naquela época estávamos todos num mesmo plano, teríamos rejeitado com energia qualquer opinião pejorativa a respeito dos nossos colegas; de fato, lutávamos por aqueles que na casa eram questionados pela sua baixa extração ou falta de elegância. Eu sabia que muitos deles (talvez os mais humildes) chegariam longe e aqui, na escola, iam se forjar as amizades duradouras, em cuja companhia cursaríamos o mar bravio. Não, não foi assim. Não houve regras. Muitos dos humildes ficaram por ali, muitos chegaram acima do que podíamos prognosticar naquelas fogosas, amáveis tertúlias. Outros, que parecíamos prometer tudo, ficamos na metade do caminho, destripados num exame extracurricular, isolados por uma vala invisível dos que triunfaram e dos que nada atingiram. Enfim, hoje tornei a sentar-me nas cadeiras modernizadas — também há, como barricada de uma invasão, uma máquina de refrigerantes — e pretendi ler expedientes. Vi muitos antigos colegas, mudados, amnésicos, retocados de luz de neon, prósperos. Com a confeitaria que quase não reconhecia, com a própria cidade, tinham ido se cinzelando num ritmo diferente do meu. Não, já não me reconheciam; ou não queriam me reconhecer. No máximo — um ou dois — uma mão gorda e rápida sobre o ombro. Oi, velho, como vai! Entre eles e mim interferiam os dezoito buracos do Country Club. Disfarcei-me atrás das papeladas de oficio. Desfilaram na minha memória os anos das grandes ilusões, dos prognósticos felizes e, também, todas as omissões que impediram sua realização. Senti a angústia de não poder levar as mãos ao passado e juntar os pedaços de algum quebra-cabeça abandonado; mas a arca dos brinquedos vai sendo esquecida e, no final, quem saberá para onde foram os soldadinhos de chumbo, os cascos, as espadas de madeira? As fantasias tão queridas não passaram disso. E, no entanto, houve constância, disciplina, apego ao dever. Não era suficiente, ou sobrava? Em algumas ocasiões me assaltava a lembrança de Rilke. A grande recompensa da aventura da juventude deve ser a morte; jovens, devemos partir com todos nossos segredos. Hoje, não teria que voltar o olhar para as cidades de sal. Cinco pesos? Dois de gorjeta. "Pepe, além da sua paixão pelo direito mercantil, gosta de teo­rizar. Ele me viu sair da catedral, e juntos nos encaminhamos para o palácio. Ele é incréu, mas isso não lhe basta; em meio quarteirão teve que fabricar uma teoria. Que se eu não fosse mexicano, não adoraria a Cristo e — Não, olha, parece evidente. Chegam os espanhóis e te propõem adorar um Deus morto feito um coágulo, com um lado ferido, cravado numa cruz. Sacrificado. Ofertado. Que coisa mais natural do que aceitar um sentimento tão próximo a todo teu cerimonial, a toda tua vida?... Imagina o contrário, que o México tivesse sido conquistado por budistas ou por maometanos. Não é concebível que nossos índios venerassem um indivíduo que morreu de indigestão. Mas um Deus a quem não basta que se sacrifiquem por ele, mas que inclusive se entrega para que lhe arranquem o coração. Caramba! Xeque-mate a Huitzilopochtli! O cristianismo, no seu sentido cálido, sangrento, de sacrifício e liturgia, se torna um prolongamento natural e novo da religião indígena. Os aspectos caridade,amor e o outro lado do rosto, no entanto, são rechaçados. E tudo no México é isso: é preciso matar os homens para poder acreditar neles. "Pepe conhecia minha inclinação, quando jovem, por certas formas da arte indígena mexicana. Eu coleciono estatuetas, ídolos, vasos. Meus fins de semana passo em Tlaxcala ou em Teotihuacán. Talvez por isso ele goste de relacionar todas as teorias que elabora para meu consumo com esses temas. Na verdade procuro uma réplica razoável do Chac Mool há muito tempo, e hoje Pepe me informa sobre um lugar na Lagunilla onde vendem um deles em pedra e que parece ser barato. Vou no domingo. "Um engraçadinho pintou de vermelho a água do garrafão no escritório, com a conseqüente perturbação das atividades. Fui obrigado a informar o diretor, que se limitou a rir muito. O culpado aproveitou-se da circunstância para fazer sarcasmos à minha custa o dia inteiro, todos em torno da água. Ch... "Hoje, domingo, aproveitei para ir à Lagunilla. Encontrei Chac Mool na barraca que Pepe me indicara. Trata-se de uma peça belíssima, de tamanho natural, e apesar de o marchand me assegurar sua autenticidade, eu duvido. A pedra é corrente, mas isso não diminui a elegância da postura ou a solidez do bloco. O vendedor desleal esfregara molho de tomate na barriga do ídolo para convencer os turistas da sangrenta autenticidade da escultura. "O transporte para casa me custou mais do que a aquisição da peça. Porém já está aqui, no momento, no porão, enquanto reorganizo meu quarto de troféus, a fim de lhe dar acolhida. Essas figuras precisam do sol vertical e fogoso; esse foi seu elemento e condição. Perde muito meu Chac Mool na escuridão do porão; ali,ela é uma simples forma agonizante, e sua expressão parece me cobrar que estou lhe negando a luz. O comerciante tinha uma lâmpada que iluminava verticalmente a escultura, recortando todas as suas arestas e proporcionando-lhe uma expressão mais amável. Vou ter que imitar seu exemplo. "Amanheci com o encanamento de água com defeito. Incauto, deixei correr da cozinha a água, que transbordou, correu pelo chão e chegou até o porão, sem que eu percebesse. O Chac Mool resiste à umidade, mas minhas malas sofreram. Tudo isso, num dia de muito trabalho, me obrigou a chegar tarde ao escritório. "Chegaram, por fim, para consertar o encanamento. As malas, tortas. E o Chac Mool, com lama na base. "Acordei à uma da manhã: tinha ouvido um gemido terrível. Pensei em assalto. Só imaginação. "Os gemidos noturnos têm continuado. Não consigo identificar a causa, estou nervoso. E, infelizmente, o encanamento voltou a dar problemas, e as chuvas que não param alagaram o porão. "O bombeiro não aparece; estou desesperado. Do Departamento do Distrito Federal melhor nem falar. É a primeira vez que os ralos não dão conta da água das chuvas que acaba entrando no meu porão. Os gemidos pararam: vai uma coisa pela outra. "O porão foi seco, e Chac Mool está coberto de lama. Ficou com uma aparência grotesca, porque toda a massa da escultura pare­ce agora sofrer de erisipela verde, exceto os olhos que permaneceram de pedra. Vou aproveitar o domingo para raspar o musgo. Pepe aconselhou-me mudar para um apartamento, morar num andar alto, para evitar essas tragédias aquáticas. Mas não posso deixar este casarão, com certeza é muito grande para uma pessoa só, um pouco lúgubre na sua arquitetura porfiriana. Porém é a única herança e lembrança dos meus pais. Não consigo me imaginar olhando para uma sinfonola no porão, e uma loja de decorações no térreo. "Fui raspar o musgo do Chac Mool com uma espátula. Parecia já estar fazendo parte da pedra; foi um trabalho de mais de uma hora, e só às seis da tarde consegui acabar. Não se distinguia muito bem na penumbra; quando terminei o trabalho, toquei com a mão os contornos da pedra. Cada vez que a tocava, o bloco parecia amolecer. Não podia acreditar: já estava ficando como uma massa. Esse mercador de Lagunilla me enganou. Sua escultura pré-colombiana é de puro gesso, e a umidade vai acabar com ela. Joguei por cima uns panos; amanhã vou levá-la para o quarto de cima, antes que sofra uma deterioração total. "Os panos caíram no chão, incrível! Voltei a apalpar o Chac Mool. Ele endureceu, mas a consistência da pedra não volta. Não quero escrever isto: há no seu torso algo parecido à textura da carne; ao apertar-lhe os braços sinto-os como se fossem de borracha, percebo que algo circula por essa figura reclinada... À noite desci novamente. Não resta nenhuma dúvida: Chac Mool tem pêlos nos braços. "Nunca me tinha acontecido uma coisa dessas. Enrolei os as­suntos do escritório, passei uma ordem de pagamento que não estava autorizada, e o diretor teve que me chamar a atenção. Talvez até tenha sido indelicado com meus colegas. Vou ter que ver um médico, saber se é a minha imaginação ou delírio, o que é, e talvez me desfazer desse maldito Chac Mool." Até aqui a caligrafia de Filiberto era a antiga, a que tantas vezes vi na forma, nos memorandos, larga e oval. A da entrada de 25 de agosto, no entanto, parecia escrita por uma outra pessoa. Umas vezes como de criança, separando com esforço cada letra; outras, nervosa, até se diluir no incompreensível. Passaram-se três dias sem nada, e a história continua: "Tudo é tão natural; e logo se crê no real... mas isto é real, mais do que já foi acreditado por mim. Se é real um garrafão, e mais ainda, porque percebemos melhor sua existência, ou existir, se um gozador pinta a água de vermelho... Real e efêmero absorver o fumo do cigarro, real imagem monstruosa num espelho de circo, reais não são todos os mortos, presentes e esquecidos?... Se, por acaso, um homem atravessasse o paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que tinha estado lá, e se, ao acordar, ele encontrasse essa flor na sua mão... então, o quê?... Realidade: certo dia quebraram-na em mil pedaços, a cabeça foi para lá, a cauda para cá e nós não conhecemos mais que uma das partes soltas do seu grande corpo. Oceano livre e fictício, só real quando fica preso no rumor dum caracol marinho. Até três dias atrás, minha realidade o era até ter-se apagado hoje; era movimento reflexo, rotina, memória, cartapácio. E depois, como a terra que um dia treme para nos recordar seu poder, ou como a morte que chegará um dia, me recriminando o esquecimento de toda a vida, apresenta-se outra realidade: sabíamos que estava ali, assustadora; agora sacode-nos para se fazer viva e presente. Pensei, novamente, que se tratava de pura imaginação: o Chac Mool, mole e elegante, tinha mudado de cor numa noite; amarelo, quase dourado, parecia mostrar-me que era um deus, por enquanto frouxo, com os joelhos um pouco menos tensos que anteriormente, com o sorriso mais benévolo. E ontem, por fim, um despertar sobressaltado, com essa certeza espantosa de que há duas respirações na noite, de que na escuridão batem mais pulsos do que o próprio. Sim, ouviam-se passos na escada. Pesadelo. Voltar a dormir... Não sei quanto tempo tentei dormir. Quando voltava a abrir os olhos, ainda não tinha amanhecido. O quarto cheirava a horror, a incenso e a sangue. Com o olhar negro, percorri a recâmara, até me fixar em dois orifícios de luz piscante, em duas flâmulas cruéis e amarelas. "Quase sem fôlego, acendi a luz. "Ali estava Chac Mool, erguido, sorridente, ocre, com sua barriga encarnada. Deixaram-me paralisado os dois olhinhos quase oblíquos, bem junto ao cavalete do nariz triangular. Os dentes inferiores mordiam o lábio superior, imóveis; só o brilho do panelão quadrado sobre a cabeça anormalmente volumosa, denunciava vida. Chac Mool avançou em direção à minha cama; então começou a chover." Lembro que pelo final de agosto, Filiberto foi despedido da Secretaria, com uma recriminação pública do diretor e rumores de loucura e até de roubo. Nisso não acreditei. O que pude ver foram uns ofícios irracionais, perguntando ao oficial maior se a água podia ser cheirada, oferecendo seus serviços ao secretário de Recursos Hídricos para fazer chover no deserto. Não sabia o que pensar sobre tudo isso; achei que as chuvas, excepcionalmente fortes nesse verão, tinham enervado meu amigo. Ou que a vida naquele casarão antigo ,estava lhe provocando alguma depressão moral, com a metade dos quartos fechados e empoeirados, sem empregados nem vida familiar. As notas seguintes são de fins de setembro: "Chac Mool consegue ser simpático quando quer... 'um glub-glub de água encantada'... Conhece histórias fantásticas sobre a monção, as chuvas equatoriais e o castigo dos desertos; cada planta sai da sua paternidade mítica: o salgueiro é sua filha transviada; os lótus, suas crianças mimadas; sua sogra, o cacto. O que não consigo suportar é o cheiro, extra-humano, que emana dessa carne que não é carne, das sandálias flamantes da velhice. Com riso estridente, Chac Mool revela como foi descoberto por Le Plongeon e colocado fisicamente em contato com homens de outros símbolos. Seu espírito viveu no cântaro e na tempestade, com naturalidade; outra coisa é sua pedra, arrancada do seu esconderijo maia no qual jazia; é artificial e cruel. Creio que Chac Mool nunca perdoará isso. Ele sabe da iminência do fato estético. "Tive que providenciar saponáceo para ele lavar o ventre por onde o mercador, pensando ser ele asteca, passou molho ketchup. Não me pareceu gostar da minha pergunta sobre seu parentesco com Tlaloc, e, quando fica bravo, seus dentes, que já são repulsivos, se afinam e brilham. Os primeiros dias, desceu ao sótão para dormir; a partir de ontem, dorme na minha cama. "Hoje começou a temporada da seca. Ontem, da sala onde durmo agora, ouvi os mesmos gemidos roucos do princípio, seguidos de ruídos terríveis. Subi; entreabri a porta do quarto: Chac Mool estava quebrando os abajures, os móveis; quando me viu, pulou em direção à porta com as mãos arranhadas, e apenas consegui fechar e correr para me esconder no banheiro. Pouco depois desceu, ofegante, e pediu água; deixa o dia todo as torneiras abertas, não fica um centímetro seco dentro da casa. Eu preciso dormir muito bem agasalhado, e tenho pedido a ele para não molhar mais a sala. "Chac inundou hoje a sala. Exasperado, disse-lhe que ia devolvê-lo ao mercado de Lagunilla. Tão terrível quanto sua risadinha — horrorosamente diferente de qualquer risada de homem ou de animal­ foi a palmada que me deu, com esse seu braço carregado de pesados braceletes. Tenho que reconhecer: sou seu prisioneiro. Minha idéia original era bem diferente: eu dominaria Chac Mool, como se domina um brinquedo; era, por acaso, um prolongamento da minha segu­rança na infância; mas a infância — quem falou isso? — é o fruto comido pelos anos, e eu não tinha percebido... Pegou minhas roupas e veste a bata quando começa a lhe brotar o musgo verde. Chac Mool está acostumado a que lhe obedeçam, desde sempre e para sempre; eu, que nunca tive que mandar, só posso me dobrar diante dele. Enquanto não chover — e o seu poder mágico? — viverá colérico e irritadiço. "Hoje decidi que de noite Chac Mool sai da casa. Sempre, ao escurecer, canta uma toada ruidosa e antiga, mais velha que próprio canto. Logo cessa. Bati várias vezes na sua porta e, como não respondesse, tive a coragem de entrar. Eu não tinha retornado ao quarto desde o dia em que a estátua tentou me agredir: está em ruínas, é ali que se concentra aquele cheiro de incenso e sangue que tem flutuado pela casa. Mas atrás da porta, há ossos de cachorros, de ratos e de gatos. Tudo isso de rouba durante a noite para se sustentar. Isso explica os latidos espantosos das madrugadas. "Fevereiro, seco. Chac Mool vigia meus passos; tem-me obrigado a telefonar para urna pensão para que diariamente me entreguem urna marmita. Mas o dinheiro levado do escritório já está acabando. Aconteceu o inevitável: a partir do dia primeiro, desligaram a água e a luz por falta de pagamento. Mas Chac Mool desco­briu urna fonte pública a dois quarteirões daqui; todos os dias eu faço dez ou doze viagens em busca de água, e ele me observa do terraço. Diz que se eu tiver a intenção de fugir vai me fulminar: também é Deus do Raio. O que ele não imagina é que estou sabendo das suas escapulidas noturnas... Corno falta luz, vou me deitar às oito. Já deveria estar acostumado ao Chac Mool, mas faz pouco tempo, na escuridão, topei com ele na escada, senti seus braços gelados, as escamas de sua pele renovada e me deu vontade de gritar. "Se não chove rápido, o Chac Mool vai se converter novamente em pedra. Tenho reparado que sente dificuldades para se mexer; às vezes fica encostado durante horas, paralisado, apoiado na parede e parece ser, de novo, um ídolo inerme, por mais deus da tempestade e do trovão que seja considerado. Mas esses repousos lhe proporcionam novas forças para me humilhar, me arranhar corno se pudesse arrancar de mim algum líquido da minha carne. Já não acontecem mais aqueles intervalos amáveis durante os quais me contava antigas histórias; creio perceber nele urna espécie de ressentimento concentrado. Também há outros indícios que me preocupam: os vinhos da adega estão quase acabando; Chac Mool acaricia a seda da bata; deseja urna empregada na casa, fez-me ensiná-lo a usar sabonete e loções. Há inclusive algo de velho no seu rosto que antes parecia eterno. Isto pode ser minha salvação: se Chac cai em tentações, se ele se humaniza, provavelmente todos os seus séculos de vida se acumulem num instante e ele caia fulminado pelo poder adiado do tempo. Mas também penso numa coisa terrível: o Chac não gostará que eu assista à sua queda, não aceitará uma testemunha... é possível que ele deseje me matar. "Aproveitarei hoje a excursão noturna de Chac para fugir. Partirei para Acapulco; vamos ver o que se pode fazer para arrumar trabalho e aguardar a morte de Chac Mool; sim, está próxima; está com cabelos brancos, inchado. Eu preciso pegar sol, nadar e recuperar forças. Sobram-me quatrocentos pesos. Irei à pensão Müller, que é barata e confortável. Que Chac Mool fique dono de tudo: quero ver quanto dura sem meus baldes de água." Aqui termina o diário de Filiberto. Não quis pensar mais na sua história; dormi até Cuernavaca. Dali para o México tentei dar coerência ao escrito, relacionar aquilo com excesso de trabalho, com alguma causa psicológica. Quando, às nove da noite, chegamos ao terminal, ainda não podia explicar-me a loucura do meu amigo, Contratei uma caminhonete para levar o féretro à casa de Filiberto,e posteriormente organizar o enterro. Antes de conseguir introduzir a chave na fechadura, a porta se abriu. Apareceu um índio amarelo, de bata, com cachecol. Sua aparência não podia ser mais repulsiva; exalava um cheiro de perfume barato, queria cobrir as rugas com o rosto cheio de pó; tinha a boca enlameada de batom mal aplicado, e o cabelo dava a impressão de estar tingido. — Desculpe... não sabia que Filiberto tivesse... — Não faz mal; sei de tudo. Diga aos homens que levem o cadáver para o porão. FONTE:http://www.releituras.com/cfuentes_menu.asp

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Negrinha Monteiro Lobato

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças. Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo. Ótima, a dona Inácia. Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa: — Quem é a peste que está chorando aí? Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero. — Cale a boca, diabo! No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer... Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. — Sentadinha aí, e bico, hein? Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas. — Braços cruzados, já, diabo! Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante. Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim. Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste... O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta... A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”... O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo: — Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!... Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor! Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente. Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias. — “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa. Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se. — Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias. — Traga um ovo. Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou: — Venha cá! Negrinha aproximou-se. — Abra a boca! Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois: — Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste? E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava. — Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá! — A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre. — Sim, mas cansa... — Quem dá aos pobres empresta a Deus. A boa senhora suspirou resignadamente. — Inda é o que vale... Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas. Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo. Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos. Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”? Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre. — Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa. — Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora. — Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco. Chegaram as malas e logo: — Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas. Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos. Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia... Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial. — É feita?... — perguntou, extasiada. E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la. As meninas admiraram-se daquilo. — Nunca viu boneca? — Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca? Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade. — Como é boba! — disseram. — E você como se chama? — Negrinha. As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca: — Pegue! Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena. Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se. Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos. Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida: — Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein? Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu. Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha... Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher. Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! Assim foi — e essa consciência a matou. Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada. Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida. Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos. Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a. Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma. Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada. Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta. Mas, imóvel, sem rufar as asas. Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou... E tudo se esvaiu em trevas. Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados... E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. — “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?” Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia. — “Como era boa para um cocre!...” ( CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO)

terça-feira, 3 de abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012

Minha biblioteca Ana Miranda

Existe uma estranha geografia em minha cabeça, que se refere a um mundo em torno de mim, um mundo físico, palpável, mas de significados infinitos. Essa estranha geografia surgiu do meu hábito de viver trancada num escritório cheio de livros. Esses livros dispostos numa serena ordem um ao lado do outro representam a minha mente como um mapa a um país. Se fecho os olhos, as prateleiras de livros se acendem dentro de minha cabeça, como se minha cabeça fosse também um aposento forrado de estantes de livros em que cada um deles é uma porta para um mundo diferente. Todos são logicamente posicionados, de acordo com um sistema funcional. Se me recordo de um desses livros, meu olhar vai diretamente ao lugar em que se encontra. Raras vezes algum se perde, mas quando isso acontece caio numa espécie de desespero. Algumas vezes basta olhar a lombada de um deles para receber sua influência, como uma secreta ligação, feito as ondas do mar em relação à Lua. Às vezes sinto um apelo irresistível, como se um deles me chamasse, e seja em que momento for, levanto da cadeira, retiro o livro da estante e o folheio, para ouvir o que tem a dizer. Esses livros determinam meus sentimentos, meus pensamentos, meu entendimento do mundo. Eles são o mapa de minha alma. Cada um deles representa uma região, um lugar onde estive, e onde ainda estou. Há entre eles, claro, os livros escritos por mim, mesmo os traduzidos em outras línguas. Ficam separados numa das prateleiras, rabiscados desde a primeira página onde se encontram as palavras manuscritas: “meu exemplar de trabalho”. A leitura sistemática e assídua que realizei nestes últimos anos, sendo grande parte sobre livros de história ou história literária, dotou minha mente de uma desconfortável consciência histórica. Assim, tenho sempre a sensação de que nada me pertence, de que nenhuma palavra que escrevi é minha, de que não sou autora de meus próprios trabalhos, mas apenas um elo na construção literária da humanidade, uma pequena e frágil conexão entre um e outro tempo, massacrada pelas circunstâncias históricas. Todos esses livros são para mim seres vivos, que sorriem, choram, zombam, ensinam, atraiçoam, respiram. Há cerca de vinte anos vivo por eles dominada. Quando criança tive uma pequena biblioteca, da qual me lembro de apenas alguns títulos. Ao sair da casa de meus pais, aos dezessete anos, ela ficou em meu quarto, e se perdeu. Tive depois disso apenas uma biblioteca que se foi ampliando com o tempo. A cada vez que eu me mudava de casa, levava caixotes repletos de livros. A cada mudança eram mais e maiores caixotes. Houve um momento em que a minha coleção de livros passou a ser realmente uma biblioteca, quando precisei criar uma ordem, a fim de que pudesse encontrar os volumes. Isso aconteceu cerda de quatro anos antes de eu publicar o meu primeiro romance, quando eu morava numa mansarda cujas janelas se abriam para uma paisagem de telhados, quando aprendi a conhecer o mundo dos telhados, povoado de gatos, estrelas e a Lua, além de alguns animais repugnantes, como lagartixas ou algum camundongo perdido. A mansarda tinha apenas dois ambientes: um escritório, uma cozinha-armário e um jirau que servia de quarto formavam o primeiro ambiente; o outro era apenas um desproporcionalmente grande banheiro onde cabiam máquina de lavar e de secar roupas. O escritório tinha apenas uma das paredes coberta de livros, organizados por gêneros, como romance e conto, poesia, ensaio, livros de referência. Eu tinha uma vida austera e comprava livros com parcimônia. Cada livro que passava a fazer parte de minha biblioteca tinha um significado para mim, havia sofrido uma espécie de prova e se integrado à minha estrutura pessoal. Eu os sentia todos ligados a mim por fios invisíveis. Sair de perto deles era uma espécie de rompimento, e eu me sentia perdida. Passei a gostar de permanecer apenas ali perto deles, uma espécie de prisioneira voluntária, conformada, até mesmo feliz. Em seguida me mudei para um lugar maior, onde o escritório todo em madeira era voltado para um jardim – também apareciam gatos, estrelas, a Lua, ratos e lagartixas, além de caracóis, lesmas, vorazes lagartas verdes que acabaram se tornando minhas amigas, minhocas, joaninhas, uma infinidade de bichos moradores ou visitantes – e três paredes de estantes abrigavam uma quantidade bem maior de livros. Lembro-me de minha atividade ao mesmo tempo frenética e monótona, subindo de descendo degraus, tirando e devolvendo livros, abrindo e fechando páginas, guardando, registrando na mente cada lugar, cada palavra, cada frase que se tornava importante para mim. Na época eu ainda dispunha de espaço, estava numa situação financeira um pouco melhor e tinha uma incontível ganância em adquirir livros, que se amontoavam na minha cabeceira esperando a vez de serem lidos até merecerem entrar no recinto sagrado de meu escritório. Eu buscava não apenas livros novos, quer dizer, ainda não lidos por mim, como tentava recuperar os que havia lido na adolescência ou mesmo na idade adulta e que estavam perdidos, fisicamente. Ainda tinha a ilusão de que poderia guardar comigo todos os livros do mundo. Hoje vivo num escritório mais amplo, branco, com janelas de vidro rasgando uma das paredes de um a outro lado, por onde se avistam a cidade do Rio de Janeiro, o mar, as ilhas Cagarras, Palmas, Redonda etc., o céu, estrelas, a Lua. Em vez de gatos ou insetos vejo pássaros ou surpreendentes balões dirigíveis, ou helicópteros, ou aviões. A biblioteca que me circunda é imensamente maior do que as anteriores, apesar de meu rigor na entrada e permanência dos volumes. Os meus livros convivem pacificamente com os livros de meu marido. É uma casa onde os livros são o centro de tudo. Há livros na sala, no quarto, na cozinha, no corredor, nos quartos das crianças, claro, no quarto da empregada (minha assessora especial diz que na próxima vida voltará como escritora), livros no banheiro. Os livros, como as pessoas, têm seu destino. Penso sempre no que acontecerá com esses livros, depois de minha morte, se é que algum dia eu vá morrer, sempre tenho a esperança de assistir à descoberta da fonte de imortalidade. Meu filho não terá interesse por eles? Quem sabe algum neto. Alguém os comprará a quilo para serem vendidos num sebo? Talvez eu possa doá-los a uma instituição, ou a pessoas amadas, como fez um amigo meu que morreu muito jovem e sua morte anunciada permitiu que ele fizesse um testamento distribuindo sua biblioteca. Graças a ele, tenho edições antigas de Proust, Updike, Milan Kundera ou Guimarães Rosa.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Vestido de fustão José J. Veiga

Os dois elevadores entraram em pane ao mesmo tempo e todo mundo precisou usar a escada. Por sorte dos moradores e visitantes, o prédio, antigo, ó tinha seis andares, e ninguém se estafava em demasia para subir ao seu andar. Tinha os idosos, claro, mas esses, não precisando sair todos os dias obrigatoriamente, podiam muito bem esperar o conserto sem inconvenientes insuportáveis. Talvez até que ficarem retidos em casa por um ou dois dias resultasse em benefício para eles, por mantê-los afastados dos perigos das ruas, mesmo sendo contra a vontade. Com o enguiço simultâneo dos elevadores a administração acordou para a necessidade de limpar a escada. Na madrugada para o segundo dia fez-se bela faxina, e quando os moradores começaram a descer de manhã ficaram literalmente encantados. Só os mais antigos se lembravam que os degraus eram de mármore, e agora reapareciam como que renascidos. E na curva de cada meio-andar havia um vitral que os curiosos ficavam sabendo que fora feito no ateliê de lustres e vitrais de Luiz Giongi, avenida Augusto Severo 48. Todos os cinco vitrais, uns representando flores e folhagens, outros figuras femininas com vestes gregas, foram lavados a jatos de água e sabão nas duas faces, e depois enxugados, mas isso aparentemente só na face interna; a externa foi deixada para se enxugar por si mesma. A escada não era muito larga, e como os degraus na parte oposta à parede se estreitavam para acompanhar a curvatUra, a ponto de não poderem ser usados sem risco, quando acontecia de quem ia subindo encontrar pessoas que vinham descendo, quem subia precisava se espremer contra a parede para dar passagem aos descentes. Mas isso não chegava a ser nenhum transtorno; na maioria eram gente conhecida, que se cumprimentava nesses encontros e trocava comentários sobre a maçada de terem de usar a escada. Foi nessa escada que um senhor de meia-idade chamado Xisto teve um encontro que o sacudiu por demais. Ele trabalhava numa loja de tapetes e cortinas, e uma viúva moradora no terceiro andar telefonara por indicação de uma amiga pedindo alguém para levar mostruário de cortinas e fazer um orçamento. Vendedor competente, o sr. Xisto levava também um mostruário de tapetes; quando se muda ou se instala cortinas numa casa, geralmente cabe a sugestão de se mudar os tapetes para harmonizar o ambiente. Na escada ele se cruza com uma moça. Aliás nem moça completa ainda; pouco mais do que menina. Encontraram-se bem na curva do primeiro para o segundo andar, e naturalmente o sr. Xisto se chegou bem para o lado da parede, à direita. Por um instante a menina recebeu a claridade do vitral no rosto, nos cabelos e no busto. Tinha cabelo castanho cheio, cortado na altura da nuca. Era esbelta e usava vestido de fustão amarelo claro com cinto também de fustão e fivela revestida de couro. Os olhares deles se encontraram, o dele embevecido. Ela sorriu e agradeceu apenas inclinando a cabeça. Sr. Xisto reconheceu imediatamente que acabara de ser contemplado com a visão mais linda e pura de seus quarenta e um anos de vida. Mesmo que não vendesse cortinas e tapetes, já estava com o dia ganho. Com muitos dias ganhos. Sentiu-se leve, flutuante, invulnerável a decepções. A viúva — gorda, alegre, desinibida, limpa, cheirando a banho de ervas — resolvia palavras cruzadas quando o sr. Xisto tocou. Ela mesma atendeu porque a empregada de muitos anos, Ignácia-com-gê, não se esqueça, estava lavando a cozinha. — Sr. Xisto? — disse a viúva escancarando a porta. — Vá entrando. Não fique me olhando de longe. Sei que sou feia, mas não horrorosa. É que o sr. Xisto tinha o hábito de tocar a campanhia e se afastar da porta para não assustar quem abrisse, gesto positivo que aprendera em um curso dado por famoso vendedor americano no hotel Glória, isso quando o Brasil ganhou a terceira Copa do Mundo. — Obrigado, dª Carolina. — Coralina. Não sei por que todo mundo cisma de mudar o meu nome. Parece que querem corrigir meus pais. Falha imperdoável. Estropiar o nome de um cliente. E por cima, de um cliente ainda em perspectiva. O sr. Xisto desculpou-se, porém não exageradamente. Não se deve ser subserviente num trabalho de venda, o subserviente não inspira confiança, dá a impressão de querer ser simpático para vender de qualquer maneira. — Muito bem, sr. Xisto. Agora que o senhor se desculpou e eu aceitei suas desculpas, e nem era preciso se desculpar porque o assunto é irrelevante, vamos ao trabalho. Quando a minha Ignácia-com-gê acabar de lavar a cozinha eu mesma vou providenciar um café para nós dois. Ou o senhor é café-abstêmio? O sr. Xisto disse que, muito pelo contrário, era mais para café, adepto. Abriu a pasta e foi tirando as amostras, primeiro as de cortinas. Eram fotografias grandes a cores, de muito boa qualidade, tendo ao pé retalhos dos tecidos empregados. A sra. Coralina foi separando as que lhe agradaram para novo exame e possível escolha. A partir de certo momento ela notou que o sr. Xisto como que viajava, não estava ali inteiro. Dª Coralina fez umas duas perguntas pertinentes que não o alcançaram. Resolveu sacudi-lo. — Hora de acordar, sr. Xisto. O galo já cantou. O sol já raiou. Ele baixou à terra. Piscou. Situou-se. — Oh, dª Coralina. Me perdoe. Me distraí. — Distraiu-se ou abstraiu-se? Tem diferença, sabia? Ou comeu muito no almoço? Ou tem pressão baixa? Ignácia salvou-os, aparecendo para avisar que a cozinha estava liberada. Ao ver o sr. Xisto, encabulou-se. — Este é o sr. Xisto. Formado em cortinas — disse a dona da casa. — E em tapetes — informou ele, voltando a vendedor. — Ignácia-com-gê, sua criada. Se me dão licença, agora vou repousar. Caso dª Coralina não precise de mim. Dª Coralina disse que não precisava, e desejou bom repouso. Depois do café, não de coador, mas um cappuccino de envelope para dissolver no leite, que o sr. Xisto adorou (pelo menos assim disse) e tomou nota da marca, fecharam negócio das cortinas, uma grande para o quarto, duas não tão grandes para as salas. Tapete ele não conseguiu vender porque o quarto tinha carpete de fora a fora, que dª Coralina achou que não destoava da cortina e ele não teve argumento honesto para discordar; e os tapetes das salas eram quase novos e dª Coralina escolhera as cortinas já pensando neles. Dias depois, o sr. Xisto voltou ao prédio, não para visitar a viúva, conferir medidas, sugerir nova escolha por ter faltado algum tecido; voltou na hora da primeira visita com a esperança de reencontrar a menina vestida de fustão amarelo claro. Não teve sorte, voltou outras vezes. Quando voltou com um auxiliar para instalar as cortinas, ele para acompanhar o trabalho, dª Coralina falava ao telefone na sala de estar. Fez sinal aos dois para sentarem e esperarem. Conversa demorada, misturada com risadas, às vezes com censuras e recomendações. Depois de algum tempo tapou o fone e chamou Ignácia para servir um cappuccino aos cavalheiros; e retomou a conversa. Servido o café, o ajudante pediu em cochicho a sr. Xisto que perguntasse se podia fumar. À vontade, foi a resposta. Os dois acenderam cigarros. Finalmente dª Coralina desligou e veio cumprimentá-los. E se justificou. — Estava falando com a menina que criei. É modelo. Foi para Nova York no começo do mês, contratada por uma agência de lá. Gasta um dinheirão com telefone, fala comigo quase todos os dias. É modelo. Viajou no começo do mês. Está batendo. Quem sabe? — Deve ser bonita — arriscou o sr. Xisto. — Bonita? Põe boniteza nisso, sr. Xisto. Ignácia! Traz o álbum da Ide pra eu mostrar ao sr. Xisto. Chama-se Eurídice, mas aqui em casa sempre foi Ide. O sr. Xisto se iluminou. Só podia ser. Mas lá longe agora... voltaria um dia? Chegou o álbum que o sr. Xisto literalmente arrebatou de Ignácia, mas abriu com indisfarçável reverência, depois de respirar fundo para se segurar. Eurídice em várias poses, em vários instantâneos, naturais ou fingidos de naturais. Linda. Mas não era a menina vestida de fustão amarelo claro, vista na curva da escada, na claridade do vitral. Eurídice tinha cabelos negros, olhos verdes, era mais alta, pernilonga, feições completamente diferentes. Que pena! Ou ainda bem? Devolveu desapontado o álbum, mas felicitou dª Coralina por ter uma filha de criação tão bonita, e desejou tudo de bom a Eurídice. Instaladas as cortinas, o sr. Xisto voltou umas duas vezes à casa da viúva a espaços razoáveis a pretexto de saber se ela estava contente com as cortinas, se tinha alguma reclamação, se precisava de alguma coisa a mais; porém o que ele queria mesmo era subir a escada. Os elevadores já estavam funcionando há muito tempo, mas ele queria reviver o momento encantado do encontro. Numa dessas visitas, dª Coralina disse a ele no seu jeito despachado: — Sr. Xisto, o senhor é um vendedor muito sui generis. Depois de vender sua mercadoria, fica vindo para saber se o comprador está satisfeito ou se está arrependido. Ou anda querendo me fazer a corte? Se for, fique sabendo que estou fora dessas batalhas há muito tempo. Tive marido, fomos felizes, hoje sou uma viúva feliz. — Que isso, dª Coralina, não me julgue mal. É que o lema da nossa firma é: cliente contente é cliente reincidente. — Folgo em saber. Um cappuccino? — Hoje não, obrigado. Vou ver outro cliente. Uma tarde, tomando drinques no Eldorado Joint com uma amiga de colégio, agora psicóloga que escrevia sobre comportamento numa revista feminina, Xisto se abriu. Contou o encontro na escada com a menina vestida de fustão amarelo claro, descreveu com detalhes a imagem dela, os esforços que fizera para reencontrá-la. A amiga escutou tudo atentamente, sem interromper. Quando Xisto parou de falar, ela ficou pensando, girando o gelo no copo com o dedo. Por fim falou. — Sabe o que aconteceu com você? Vou tentar lhe explicar. Antes um prefácio. Pelo que sei, você é um sujeito feliz. Inteligente, simpático, boa conversa. Pequeno empresário bem sucedido. Parece feliz. É? — Bem, sou feliz na medida em que se pode ser feliz numa terra de tanta miséria, tantas frustrações. — Pois é. É o desassossego de todos nós que consegui' mos um grau razoável de independência. Mas como eu dizia, você é bem, sucedido. Ficou viúvo cedo. Amava sua mulher, e vice,versa, acompanhei essa fase de sua vida, se lembra? Você tem carro importado, casa na serra para fins de semana, sempre cheia de amigos. E amigas. Falar nisso, quando é que vai dar outra festa como aquela do seu aniversário em setembro? Voltando atrás. Sabe o que lhe aconteceu naquela escada? — Estou ávido por saber. Para isso lhe arrastei para cá, a você que nunca foi muito de beber. — E eu vim docemente arrastada. Sabe o que aconteceu na escada? Você não viu nenhuma menina vestida de fustão amarelo. Aliás viu, mas não havia menina lá. Foi um encontrou seu com sua ânima. Sabe o que é isso? — Estou ignaro. — Lembrou-se de Ignácia-com-gê e sorriu. — É o lado feminino de sua psique. Esses encontros acontecem quando os dois lados, a ânima e o ânimus, o masculino, estão em harmonia perfeita ou em conflito. Nesse caso, harmonia. — É mesmo? E o que é que eu faço para me livrar disso? Ela sacudiu o copo, sorveu o resto da bebida e disse, empurrando o copo. — Pra mim chega. Detesto uísque. Mas livrar, se por quê? Você deve é cultivar, melhor, cultuar esse momento feliz de harmonia interior, guarde,o na memória, e volte a ele sempre. Principalmente quando se sentir caído, se é que isso lhe acontece. E mais: vestido amarelo. O amarelo não entrou por acaso. Faz parte. Amarelo é sol nascente, isto é, novo dia, renascer. E é também a cor da gema do ovo. Tudo o que vive veio do ovo, se lembra das aulas de história natura!? É a cor do ouro, que representa nobreza, valor. Também a cor do amaranto, que não murcha. Tudo em cima, meu caro. Você não tem que se livrar de nada, tem mais é que abrir os braços para receber mais. Solte foguetes, homem, em vez de ficar preocupado. — Consultou o relógio. — Me dá uma carona? Meu carro está na revisão.

sábado, 3 de março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Carta de Paris Ana Cristina Cesar

I Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia, tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; apenas em delírio vejo Anaïs de capa negra bebendo como Henry no café, Jean à la garçonne cruzando com Jean Paul nos Elysées, Gene dançando à meia luz com Leslie fazendo de francesa, e Charles que flana e desespera e volta para casa com frio da manhã e pensa na Força de trabalho que desperta, na fuga da gaiola, na sede no deserto, na dor que toma conta, lama dura, pó, poeira, calor inesperado na cidade, garganta ressecada, talvez bichos que falam, ou exilados com sede que num instante esquecem que esqueceram e escapam do mito estranho e fatal da terra amada, onde há tempestades, e olham de viés o céu gelado, e passam sem reproches, ainda sem poderem dizer que voltar é impreciso, desejo inacabado, ficar, deixar, cruzar a ponte sobre o rio. II Paris muda! mas minha melancolia não se move. Beaubourg, Forum des Halles, metrô profundo, ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra. Diante da catedral vazia a dor de sempre me alimenta. Penso no meu Charles, com seus gestos loucos e nos profissionais do não retorno, que desejam Paris sublime para sempre, sem trégua, e penso em você, minha filha viúva para sempre, prostituta, travesti, bagagem do disk jockey que te acorda no meio da manhã, e não paga adiantado, e desperta teus sonhos de noiva protegida, e penso em você, amante sedutora, mãe de todos nós perdidos em Paris, atravessando pontes, espalhando o medo de voltar para as luzes trêmulas dos trópicos, o fim dos sonhos deste exílio, as aves que aqui gorjeiam, e penso enfim, do nevoeiro, em alguém que perdeu o jogo para sempre, e para sempre procura as tetas da Dor que amamenta a nossa fome e embala a orfandade esquecida nesta ilha, neste parque onde me perco e me exilo na memória; e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Desaparecido Rubem Braga

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão. Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Sintonia para pressa e presságio- Leminski

Escrevia no espaço. Hoje, grafo no tempo, na palma, na pele, na pétala, luz do momento. Soo na dúvida que separa o silêncio de quem grita do escândalo que cala, no tempo, distância, praça, que a pausa, asa, leva para ir do percalço ao espasmo. Eis a voz, eis o deus, eis a fala, eis a luz que se acendeu na casa e não cabe mais na sala. - Leminski (os cem melhores poemas brasileiros do século)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

NO RESTAURANTE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

- Quero lasanha. Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha. O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais. - Meu bem, venha cá. - Quero lasanha. - Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa. - Não, já escolhi. Lasanha. Que parada - lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato: - Vou querer lasanha. - Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão. - Gosto, mas quero lasanha. - Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá? - Quero lasanha, papai. Não quero camarão. - Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal? - Você come camarão e eu como lasanha. O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo: - Quero uma lasanha. O pai corrigiu: - Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada. A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou: - Moço, tem lasanha? - Perfeitamente, senhorita. O pai, no contra-ataque: - O senhor providenciou a fritada? - Já, sim, doutor. - De camarões bem grandes? - Daqueles legais, doutor. - Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo? - Uma lasanha. - Traz um suco de laranja pra ela. Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte. - Estava uma coisa, heim? - comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. - Sábado que vem, a gente repete... Combinado? - Agora a lasanha, não é, papai? - Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo? - Eu e você, tá? - Meu amor, eu... - Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha. O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultra-jovem.
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ANGÚSTIA

As minhas angústias
São amargas
Como o polém...
Elas vivem negras
E tem gosto de açúcar.
As minhas angústias
adormecem somente minhas.
Não navegam como o céu
Azul... turquesa, visto
Com outros olhos...
Detalhes de uma vida.
Vida apenas vista, enquanto
e padeço
Num sótão de alegrias
Mortas.

Um dia triste - 03/04/00 Xandy Britto

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